“Navegar é preciso, viver não é preciso”

Roque Pacheco de Almeida – Professor Titular de Medicina, Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Saúde e do Programa de Gestão e Inovação Tecnológica em Saúde da Universidade Federal de Sergipe.

Lucas Sousa Magalhães – Pós-doutorando do Laboratório de Imunologia e Biologia Molecular do HU-UFS

Aline Mecenas Santana Albuquerque – Enfermeira, Médica, Mestre em Ciências da Saúde pelo PPGCS-UFS

Há cerca de dois anos o mundo viu surgir os primeiros casos de uma nova doença, a COVID-19. Logo em seguida foi decretado o estado de pandemia global, com milhões de pessoas doentes e milhares de mortos até os dias atuais. Mesmo com a vacinação avançada, ouvimos diariamente sobre novos casos e a preocupação com o surgimento de formas variantes do vírus causador da doença, o que pode dificultar o controle da doença. A mais recente dessas variantes de interesse, a Ômicron, tem sido responsável pelo retorno de medidas de distanciamento mais rígidas em alguns países que já se encontravam em uma situação de maior controle de novos casos de COVID-19, deixando diversas pessoas doentes e elevando o número de óbitos. Além do vírus SARS-CoV-2, nas últimas semanas temos observado com preocupação a emergência de diversos casos de um velho conhecido: o vírus influenza, causador da gripe comum, mas agora em versão diferente daquelas que costumam circular no país, a H3N2. Diante dessas situações fica a pergunta: por que os vírus conseguem se manter de maneira contínua causando epidemias e escapando das defesas do organismo humano?

Dentre algumas possíveis respostas para a pergunta acima, podemos destacar aquilo que foi abordado anteriormente: o surgimento de novas linhagens/versões virais. Inicialmente precisamos entender que os vírus são partículas de estrutura simples e código genético pequeno. Essas características permitem que os vírus possam evoluir mais rapidamente que outros seres. É importante destacar que cada pessoa infectada pelo SARS-CoV-2, por exemplo, produz milhões de partículas virais e todas elas podem apresentar pequenas variações genéticas. Entretanto, podem surgir ainda mudanças mais profundas em estruturas essenciais do vírus causadas especialmente pela pressão seletiva que sistema imune do hospedeiro faz na tentativa de controlar o vírus. Essas mudanças são capazes de conferir ao vírus possibilidade de escapar das defesas, evitando assim sua eliminação e permitindo a sua disseminação. Esse processo de mudanças profundas em determinadas estruturas virais é chamado de deriva antigênica. A palavra antigênica vem do termo antígeno, que são pedaços minúsculos de um organismo capazes de estimular o sistema imune a gerar resposta de defesa. São como uma espécie de documento de identificação de um vírus ou uma bactéria, por exemplo.

Através dos antígenos, os componentes do sistema de defesa atuam identificando e neutralizando cópias do agente invasor disseminadas pelo organismo. No caso de infecções virais, parte essencial desse trabalho é desenvolvido pelos anticorpos. Anticorpos são moléculas produzidas por células do sistema de defesa e atuam no organismo, reconhecendo e se ligando a partículas virais que foram produzidas, impedindo que elas invadam novas células e facilitando sua eliminação. Além da própria infecção, a vacinação permite o desenvolvimento de anticorpos protetores contra um agente infeccioso. E é essa pressão feita pelo sistema de defesa, junto as características dos vírus, que observamos o surgimento de variantes virais que causam preocupação. No caso do SARS-CoV-2 há um contínuo e rápido processo de surgimento de variantes mais importantes. Em apenas dois anos desde a primeira identificação do vírus, variantes de preocupação como a Beta, Gama, Delta e recentemente a Ômicron, fizeram emergir novas ondas de casos e possibilidade de formas mais graves da doença.

No Brasil, com a disseminação descontrolada do SARS-Cov-2, emergiram duas Variantes de Preocupação no país após a primeira onda de casos de Covid – P1  (Gamma) e P2 (Zeta). A primeira foi identificada no estado do Amazonas em dezembro  de 2020 e a segunda no Rio de Janeiro em fevereiro de 2021; ambas contribuíram para o aumento de infectados no primeiro trimestre de 2021, culminando na segunda onda da doença no país. Em Sergipe, com o apoio do Laboratório Central do Estado, estudos têm sido realizados sobre a frequência de infecção por variantes na população e sua apresentação clínica desde o início da pandemia. As primeiras variantes foram identificadas no estado em amostras coletadas em abril de 2020. Desde então, 16 linhagens diferentes foram detectadas, sendo as mais frequentes a Gamma (P1) e Zeta (P2), as mesmas predominantes também no restante do país.

À medida que o vírus foi se espalhando pelos continentes e adaptando-se naturalmente também houve uma diferenciação da história natural da doença, que sempre permaneceu sendo predominantemente monitorada para prevenção do risco de insuficiência respiratória e dos eventos trombóticos interligados à cascata inflamatória. Os estudos epidemiológicos que monitoram sinais e sintomas apresentados pelos casos confirmados mostram essa variedade e o atual momento da pandemia também tem mostrado diferenças na apresentação clínica. Com o avanço das campanhas de imunização, os casos confirmados têm tido diminuição de manifestações graves.

Em pesquisa recente realizada em Sergipe comparando pacientes infectados com variantes do coronavírus e pacientes infectados com a cepa original do vírus – ambos monitorados por telemedicina, encontramos mais manifestações atípicas da doença, como dor abdominal, artralgia, hiporexia e confusão mental, o que pode ter correlação com adaptações do vírus para o acometimento de novos grupos celulares provocando novas manifestações clínicas. Com relação à evolução clínica, o desfecho de doença grave de acordo com Escala de Progressão da OMS foi identificado no grupo de pacientes com variantes, assim como oxigenoterapia e admissão em UTI.

A correlação da genômica com a análise dos dados clínicos da doença pode oferecer subsídios para estudo do comportamento dos novos vírus e orientar tratamento, bem como avaliar eficácia das vacinas. É imperativo aprimorar nosso sistema de vigilância em saúde para que sejamos capazes de detectar a chegada de variantes rapidamente e alinhar as ações em saúde para contenção do vírus e controle da pandemia.

COLUNA CIÊNCIA E SAÚDE – PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE – COLUNA 138

Editor: Prof. Dr. Ricardo Queiroz Gurgel

Coordenadora PPGCS: Prof. Dra. Tatiana Rodrigues de Moura

Rolar para cima